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sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Entrevista com André Vianco



Arrastar uma sequência frenética de acontecimentos para deixar o leitor apaixonado pela história. É desta forma que o escritor André Vianco prende o leitor não só pelo pescoço, com suas tramas vampirescas, mas pela curiosidade.
Vianco já vendeu mais de 500 mil livros no Brasil. É um dos autores mais conhecidos pelo público, que tem apreço pelos seres da noite.
Em entrevista à Livraria da Folha, Vianco fala sobre a literatura de horror no Brasil, os vampiros adolescentes que ocupam as prateleiras e a atração que essas criaturas exercem sobre as mulheres.

Livraria da Folha: Por que você decidiu escrever sobre vampiros?
André Vianco: Eu desde pequeno assistia e lia muitas histórias de terror. O vampiro dividia um espaço ali no panteão das criaturas noturnas, lado a lado com lobisomens, almas penadas e congêneres. Quando cheguei à adolescência, comecei a escrever minhas histórias e aos 23 anos de idade eu escrevi meu primeiro romance pra valer, carregado por anjos e demônios em guerra ["O Senhor da Chuva" ] e, quando terminei esse primeiro livro, pensei, agora quero escrever uma história de vampiros, foi aí que surgiu “Os Sete” em minha cabeça.

Livraria da Folha: Como foi o processo de criação dos seus primeiros livros? Qual foi o primeiro livro de vampiros que você leu? Gostou, se identificou?
Vianco: O processo de criação dos primeiros livros foi bem espontâneo, aquela coisa de experimentação, de não saber muito bem como é que se faz a coisa, mas tendo dentro de mim uma vontade danada de contar uma história. A primeira coisa que li sobre vampiros nem romance era, foram HQ’s da “Cripta do Terror”, adorava aquilo.

Livraria da Folha: O que você acha da retomada da produção literária de romances com temática de vampiros?
Vianco: Nem enxergo muito isso como uma retomada, quem gosta de literatura de terror e fantasia nunca passou vontade quando o assunto era vampiro, sempre tem um livro ou outro saindo por aí que aborde os sanguessugas. Meu primeiro livro de vampiros saiu em 2000, “Os Sete”, de lá para cá já bateu os 100 mil livros vendidos.

Livraria da Folha: Você já leu “Crepúsculo”? O que você acha da escrita da Stephenie Meyer?
Vianco: Li um trecho do primeiro romance. Dá pra ver que ela é uma boa contadora de histórias e acertou em cheio com a saga Crepúsculo.

Livraria da Folha: Como você explica o sucesso desses romances com o público feminino?
Vianco: No meu entender, creio que isso vem acontecendo desde que o cinema aplicou suas fórmulas comerciais nos filmes com vampiros, aos poucos eles foram deixando de ser os monstros terríveis que eram para passar a disputar a mocinha com mocinho e bem, agora, com os livros da Meyer, encarnaram o próprio mocinho. Toda mulher sonha em ter na vida um parceiro maravilhoso. Edward não é adorado só porque tem super poderes vampíricos, é adorado porque é super parceiro, super romântico e etc.

Livraria da Folha: Concorda com aqueles que acusam esses novos autores de deturparem o mito do vampiro?
Vianco: Não, não concordo. O mito do vampiro é mutante por natureza e acho que em literatura e cinema vale muito extrapolar, subverter o mito, buscar um jeito diferente de contar a mesma história.

Livraria da Folha: O que você acha da produção de literatura de terror/horror no Brasil?
Vianco: Acho que está crescendo em volume e qualidade, mas essa produção ainda se ressente de um pouco mais de ousadia. Falta ousar escrever histórias mais piradas. A maioria dos escritores fica olhando demais o que andam fazendo lá fora e tentando emular aqui no Brasil.

Livraria da Folha: Você tem planos de escrever livros que não sejam de temas sobrenaturais?
Vianco: Sim, tenho. Uma coisa que não me falta é ideia para uma boa história. Da última vez que contei, tinha mais de 70 argumentos para desenvolver uma narrativa. E no meio disso tenho comédias, roteiros de cinema, peças de teatro, séries para TV, romance sertanejo, tem de tudo um pouco.

Livraria da Folha: Você tem contato com outros escritores brasileiros que tratam de vampiros? Se sim, conte-nos como é.
Vianco: Tenho contato com colegas que escrevem um bocado e escrevem bem, como Kizzy Ysatis, Giulia Moon, Martha Argel, Nelson Magrini e muitos outros. Frequentamos eventos ligados ao terror e fantasia e, vira e mexe, acabamos numa mesa de bar, batendo papo. Escritores de livros de vampiros são bem normais no fundo, no fundo.

Livraria da Folha: Por que decidiu mudar da Novo Século para a Rocco? Perguntamos, porque durante sua palestra na Bienal do Livro do RJ 2009 você declarou que havia recebido várias propostas, mas permaneceria na Novo Século.
Vianco: Permaneceria e permaneci. Não mudei da Novo Século, primeiro porque tenho uma relação que transcende o mero contato profissional. A Novo Século acolheu meus textos, me orientou no início da carreira e continua fazendo isso até hoje, é uma editora e tanto. A Rocco chegou para ampliar meus horizontes e não tenho a menor dúvida de que será uma parceira de tanto valor quanto a da Novo Século.

Livraria da Folha: Você continuará publicando também pela Novo Século. Gostaríamos de saber se haverá alguma diferença entre os tipos de narrativas publicadas pela Novo Século e pela Rocco?
Vianco: A Rocco irá trabalhar com meus textos novos de fantasia, romance romântico e contos. Temos um projeto muito interessante que será trabalhado ao longo dos próximos anos, é um projeto grande e desafiador. A Novo Século continuará publicando minhas histórias de terror. Para o leitor, resta a certeza de que tem muita história boa vindo por aí e tratada por boas mãos.

Livraria da Folha: Você está produzindo um episódio piloto de uma série televisiva baseada nos três volumes de “O Turno da Noite”. Será exibido em qual canal? Você teve que realizar muitas mudanças para adaptar a narrativa ao roteiro que lhe foi exigido?
Vianco: Existem alguns canais interessados, mas a série ainda não foi vendida. Como ainda é um projeto independente, pude trabalhar mudando pouquíssima coisa, mais ajustando para a linguagem e aos meios de produção.

Livraria da Folha: “O Caso Laura” será lançado quando pela Rocco? É um livro policial, certo? Fale um pouco sobre a história.
Vianco: Exato. “O Caso Laura” é um policial dark, bem misterioso. A história gira justamente ao redor de Laura, que toda tarde, na hora de seu almoço, se encontra com um homem. Quando o investigador particular contratado para flagrar Laura passa a prestar a atenção nesse estranho homem é que a coisa pega fogo. Não posso falar muito mais do que isso, do contrário o mistério perde a graça.

Livraria da Folha: Já “A Noite Maldita”, seu décimo título sobre vampiros para a Novo Século, sai quando?
Vianco: Passei da metade de “A Noite Maldita”, mas ainda não tenho uma previsão para o lançamento, o que sei é que sai neste ano ainda.

sábado, 31 de julho de 2010

Entrevista de Rick Riordan na revista Época

O novo Harry Potter

Rick Riordan, autor da série “Percy Jackson e os Olimpianos”, conta como fez adolescentes se interessarem pelo mundo da mitologia

O escritor americano Rick Riordan diz que não gostava de ler quando era criança. Hoje se esforça para escrever livros que os jovens leitores não consigam mais largar. Com a série infantojuvenil Percy Jackson e os Olimpianos, lançada no Brasil pela editora Intrínseca, Riordan se tornou best-seller mundial. O mais curioso é que o autor usa como pano de fundo para os cinco livros da saga o que há de mais tradicional da literatura: a mitologia grega. Percy é um garoto contemporâneo de 12 anos que vai mal na escola, tem poucos amigos e é diagnosticado com déficit de atenção. No primeiro livro, O ladrão de raios, ele descobre que é um semideus, filho de Poseidon, o deus dos mares, com uma mortal. E vive um monte de aventuras malucas para se proteger de monstros e de deuses enfurecidos. Tanto o primeiro quanto o segundo livro, O mar de monstros, lançado no Brasil em abril, costumam figurar na lista dos infantojuvenis mais vendidos do país. Segundo Rick Riordan, que também escreve romances para adultos, a série de Percy Jackson é um chamariz para a leitura de literatura clássica. “Tenho a chance de transformar as crianças em leitores para a vida toda”, diz Riordan em entrevista a ÉPOCA:



ÉPOCA – O senhor era professor. A experiência em sala de aula o ajudou de alguma maneira a escrever a saga de Percy Jackson?

Rick Riordan – Com certeza. Quando escrevi O ladrão de raios, imaginei-me lendo-o em voz alta para meus alunos. Eu queria criar um romance que retivesse a atenção da classe inteira, não apenas dos alunos que já amassem ler. Eu fui um leitor relutante quando criança. Como professor e escritor, faço um esforço consciente para atingir aquelas crianças que, como eu, talvez não sejam grandes leitoras. Tento usar o que sei sobre os interesses das crianças – o que elas acham engraçado, interessante – para fazer o romance andar. Ensinar em escola foi um ótimo treinamento para me tornar um autor de livros infantis.



ÉPOCA – Por que criar um herói com dislexia e déficit de atenção?

Riordan – Quando meu filho mais velho tinha nove anos, foi diagnosticado com esses problemas. Ler era muito difícil para ele. A única matéria de que ele gostava na escola era mitologia grega. Comecei a contar-lhes histórias em casa, e foi daí que Percy Jackson nasceu. Fiz Percy disléxico e com déficit de atenção para meu filho se identificar com ele. Essas diferenças de aprendizado seriam uma indicação de que você pode ser um semideus. Meu filho não teve problemas para acreditar nisso!



ÉPOCA – Como teve a idéia de misturar mitologia grega com a vida dos adolescentes contemporâneos?

Riordan – Quando você lida com história ou literatura, o
truque é sempre torná-las relevantes para um público moderno. Um jovem leitor sempre vai pensar: “por que eu deveria me importar com histórias que aconteceram há milhares de anos?” O problema se resolve quando a história acontece hoje. A premissa da série também é que a mitologia greco-romana influenciou profundamente a sociedade moderna. Os mitos ainda estão por todo lugar – na literatura, na TV, nos filmes, na arte, na arquitetura. Uma vez que você conhece mitologia, você a reconhece aonde quer que vá.



ÉPOCA – Percy não é muito ligado em tecnologia, que é tão presente na vida dos adolescentes. Por quê?

Riordan – Hoje é tão fácil ficar conectado. Mas eu precisava de Percy sozinho, então decidi que os semideuses não podem usar celulares. A tecnologia é como um sinalizador que alerta todos os monstros sobre a presença de um herói. Se um herói pode simplesmente mandar um SMS para seus amigos quando precisa de ajuda, isso tira todo o drama da história! Além disso, posso fazer os jovens leitores pensar: “Nossa, o que eu faria sem meu celular?”



ÉPOCA – Percy, que é também o narrador, é um menino sarcástico e irônico. Por que o quis assim?

Riordan – Talvez isso venha de mim. Possivelmente esse é o estado natural de um garoto de escola, entre 11 e 14 anos de idade. Essa é a faixa etária que eu conheço melhor, e se você não desenvolve um bom senso de humor e algumas tiradas, você nunca enfrenta bem esse período.

ÉPOCA – O senhor já sabia muito de mitologia. Mas teve de estudar outros assuntos para escrever os livros sobre Percy Jackson?

Riordan – Faço muita pesquisa, mas boa parte não é intencional. Por exemplo, cada cenário da série é um lugar em que eu e minha família já estivemos. Sempre conto as histórias aos meus filhos antes, e quis usar os lugares com os quais eles têm uma ligação pessoal – Nova York, Los Angeles, Denver, Las Vegas, Saint Louis. Para O mar de monstros (livro dois) Percy faz um cruzeiro pelo Caribe. Isso é algo que eu nunca havia feito, então minha família teve de viajar num cruzeiro para “pesquisa”. Ser escritor é dureza!



ÉPOCA – O senhor acha que a série Percy Jackson pode aumentar o interesse das crianças pela literatura clássica? Já ouviu falar de algum fã seu que decidiu lerOdisseia, de Homero, ou Eneida, de Virgílio?

Riordan – Escuto isso o tempo todo de professores e de bibliotecários. Professores usam o Percy Jackson com frequência como aquecimento para seus módulos sobre Homero ou sobre mitologia grega. Bibliotecários contam que suas seções de mitologia juntavam poeira até que Percy Jackson apareceu, e agora não conseguem manter os livros nas prateleiras. Acho isso maravilhoso.

ÉPOCA – Quais as diferenças entre escrever para crianças e para adultos, na sua opinião?

Riordan – Escrever para crianças é mais complicado, pois é um público mais difícil. Elas não vão ficar com você se sair dos trilhos. Você tem que manter a história em movimento e dar-lhes uma razão para se importar com ela. No entanto, escrever para crianças é muito mais divertido, porque elas ficam bastante entusiasmadas com os livros de que gostam. Também é algo gratificante, pois tenho a chance de transformar as crianças em leitores para a vida toda.



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